07 de abril de 2.001

Sábado. Pensei que iria acordar só lá pelas 11, mas às 7:30 estava de pé. Porque será que quando a gente pode dormir, acaba acordando cedo?  Para o almoço está programada uma feijoada. Mas é a feijoada da minha mulher. É um presente dos Deuses. Eu adoro.

Nesta feijoada só entram os componentes que eu gosto: vários tipos de lingüiças, paio e carne-seca. Naturalmente não falta o arroz, a couve mineira, a farofa, a laranja e a caipirinha. Aliás, começa-se com a caipirinha e alguns goles do caldo de feijão, de modo que chegar consciente até a feijoada propriamente dita é uma proeza. Mas, depois disso, o destino é sempre o mesmo: cama.

Dormimos até as 19:00, e só nos levantamos pois queríamos comprar um presente para o nosso sobrinho, que fará 12 anos amanhã.

Fomos até o Shopping Higienópolis e começamos a rodar as lojas. E eis que vejo na vitrine da Bayard uma luneta motorizada. Não resisti e entrei para ver mais de perto esta maravilha. A luneta, na realidade era um pouco decepcionante: o motor localiza as estrelas, mas após localizá-las não as acompanha. O vendedor (Tomaz) nos surpreendeu com seus conhecimentos. Afinal, uma loja que vende de bolas de basquete, roupas, raquetes e lunetas, seria de se esperar que os vendedores entendessem apenas um mínimo de cada item. Mas o Tomaz, não: ele, além de entender de roupas, bolas e raquetes, entendia bastante de astronomia, pois os funcionários da loja haviam feito um curso ministrado pela Tasco.

Quando estávamos quase saindo da loja, fiz um comentário com a minha mulher, relativo à dificuldade de fotografar, pois para isso seriam necessários os adaptadores da câmara na luneta. O Tomaz, muito solícito não deixou por menos: pediu que esperássemos alguns instantes e logo voltou com três adaptadores. Eu mal acreditava que seria tão fácil. Mas os adaptadores eram de rosca. E minha máquina fotográfica é de "baioneta".

Então o Tomaz conversa com outra funcionária (Rosemary) e esta, apesar da loja cheia, pega no telefone e liga para outra loja. Após alguns instantes ela havia identificado os adaptadores que seriam necessários para adaptar minha máquina fotográfica à minha luneta.

Estes dois funcionários foram de uma presteza, gentileza e eficiência que eu mal podia acreditar. Ainda mais num sábado à noite, com a loja cheia de clientes.

Saí de lá com meus tão sonhados equipamentos. Isso está sendo muito divertido na astronomia: quando parece que as coisas vão parar, que não há mais solução, sempre aparece um caminho novo e eu consigo dar mais alguns passos. Afinal, eu já estava desistindo de fotografar o céu, por falta de meios práticos e que estivessem ao meu alcance. Então, acontece a mágica e eu consigo andar mais um pouquinho à frente.

Chegamos em casa e eu não resisti: montei a luneta, levei-a ao terraço que cobre nosso prédio e acoplei a máquina fotográfica. Anteriormente eu havia pensado que o adaptador consistia apenas num anel e num tubo. O tubo seria encaixado na luneta e o anel ao corpo da máquina fotográfica.

Engano meu: o tubo possui, em seu interior, uma lente. 

Para quem se interessar, seguem as especificações técnicas do conjunto:

A máquina fotográfica é uma Pentax P30T, com encaixe para objetivas do tipo "baioneta". O anel que se encaixa à máquina é definido pela Bayard como "Suporte - Tasco p/ adaptar maq. fot. em telesc. p/ Pentax - 6506".  Na embalagem, ainda aparecem os dizeres "T Mount Adapter" e "Pentax K", Importado por Bayard Imp. e Com. Ltda. Tel (011) 820-2822.

O tubo que faz a ligação entre o anel e a luneta (que possui uma lente em seu interior), é definido como "adaptador para maq. fot. em telesc. - 6660". Também importado da China pela Bayard. Existe, ainda uma etiqueta com os dizeres "Tasco - 6660".

O conjunto todo não custa pouco: R$ 209,00 (em torno de Us$ 100,00).

Então, lá estou eu no alto do prédio e, iluminando o piso, uma Lua Cheia incrivelmente luminosa. Assim, decido que o melhor a fazer é fotografar a Lua.

O conjunto de adaptadores elimina a objetiva da máquina fotográfica e as oculares da luneta, de modo que a própria luneta faz o papel de objetiva da máquina. Olha-se diretamente na ocular da máquina. O foco é ajustado pela luneta, e não pela máquina. Deixa de existir a possibilidade de regular a abertura focal da máquina, que passa a trabalhar com a objetiva toda aberta.

O fotômetro da máquina, usando um filme de ASA 800, resultava em uma exposição de 1/8 quando eu dirigia a luneta para o centro da Lua. Havia um pouco de vento, o que me fazia temer fotografias tremidas. Cada vez que eu acionava o disparador, sentia que o conjunto todo trepidava um pouco, mas o suficiente para transformar minhas fotografias em lixo. Mas, fui em frente.

Nesta montagem, as únicas variações possíveis seriam o tempo de exposição (que fiz variar de 1/2 segundo a 1/60 de segundo) e o uso de uma "Barlow" (usei a de 3x, sendo necessário, neste caso, aumentar os tempos de exposição para até 1 seg.).

Tirei 34 fotografias da Lua. Pelo menos uma tinha de sair boa... E não resisti e tirei 2 fotografias da estrela Alfa do Cruzeiro do Sul (que seria aquela que corresponde ao Sul). Pela luneta eu podia ver nitidamente (e eu já sabia disso), que esta estrela, na realidade é uma estrela dupla. De fato, podiam-se observar as duas estrelas. Usei uma exposição de 1/8 de segundo. Tentar não custa...

08 de abril de 2.001

À tarde, após o almoço em que foi comemorado o aniversário do meu sobrinho, como quem não quer nada, convidei minha mulher para darmos uma voltinha no Shopping Eldorado. Por acaso, o filme usado na noite anterior estava na bolsa dela. E, ainda por mero acaso, havia no Shopping, uma loja da Fotoptica que fazia revelação de filmes em uma hora.

E, sempre por mero acaso, uma hora depois, eu estava de posse das minhas fotografias. 36 fotografias, para ser mais exato. E, desta vez, apareciam 34 luas e duas estrelas. Tive vontade de dar pulos de alegria.

Várias das fotografias, realmente, saíram tremidas. Todas aquelas em que foi usada a "Barlow" saíram tremidas ou desfocadas. Mas, dentre todas havia umas seis ou sete que eram perfeitas. Uma delas é apresentada a seguir:

Que orgulho! Lá estava minha Lua. Inteirinha, para ninguém botar defeito. A funcionária da Fotoptica veio me perguntar do que se tratavam aquelas imagens. E eu respondi que eram da Lua. Ela gostou. Mas eu fiquei surpreso que ela e seus colegas não tivessem conseguido identificar a Lua nas imagens. Isso me fez pensar em quão mal divulgada é a Astronomia no Brasil.

Chegando em casa escaneei a foto acima e, ainda, apliquei alguns efeitos com o Photostyler 2.0. O que me chamou a atenção foi a parte superior da imagem, onde podiam-se notar as irregularidades do solo. As imagens que obtive são apresentadas a seguir.

Procedi à decomposição CMYK da imagem e obtive a imagem a seguir:

Saturei a imagem na cor amarela e procedi a algumas correções de luminosidade e contraste, obtendo a seguinte imagem, onde se evidenciam bem as irregularidades do relevo:

Comecei a sentir uma onda de esperança. Minha carreira de astrônomo amador não estava encerrada. A Lua, pelo menos eu havia conseguido fotografar. Na pior das hipóteses, eu poderia me tornar um especialista em fotografias lunares...

Um detalhe eu pude perceber: as imagens interessantes estão nas margens da luz. Assim, num quarto crescente, minha atenção deverá estar voltada para a borda que separa a porção iluminada da porção que se encontra na sombra. Lá, com certeza poderei observar as crateras e os acidentes do relevo lunar com mais precisão.

Mas e as estrelas? Estarei eu preso à Lua ou conseguirei, um dia, fotografar as estrelas, os enxames, as nebulosas...

Bem, a minha fotografia da ALFA do Cruzeiro do Sul não foi totalmente decepcionante: apareceu apenas uma das estrelas da dupla. Mas apareceu:

Ok... não é grande coisa, eu sei. Mas é uma estrela. Já não é mais um risco.

Uma verdade é indiscutível: um borrão, como o apresentado acima, não é um risco. Existe uma diferença imensa entre um borrão e um risco.

 E, se eu consegui fotografar uma estrela com um filme de 800 ASA, num dos céus mais poluídos do mundo, que é o de São Paulo, o que poderei conseguir, por exemplo, com um filme de 3200 ASA, num céu um pouco menos poluído?

 Mas isso fica para o próximo capítulo...